segunda-feira, outubro 09, 2017

Ainda as autárquicas - os efeitos nacionais


Quem ainda acha que as eleições autárquicas são meramente actos municipais engana-se redondamente. Claro que á partida as pessoas votam em função das suas realidades locais. Mas para além dos efeitos nas câmaras (e consequentemente nas áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais), assembleias municipais e freguesias, os efeitos das autárquicas influenciam muitas vezes a vida nacional e os governos.


Na cronologia das nossas eleições municipais, verificamos que depois das de 1976, que repartiram  as autarquias pelos diversos partidos (com larga incidência do PSD e CDS no Norte, Centro e ilhas, do PCP no Alentejo e "cintura industrial" de Lisboa, e o PS mais transversal mas mais estabelecido no Centro e Algarve), os sucessivos resultados foram influenciando a política nacional, algumas vezes de forma imediata. Assim, as autárquicas de 1982 foram o pretexto para que o CDS rompesse com o PSD, determinando o fim da AD, que tinha baixado substancialmente, e o posterior surgimento do Bloco Central; as de 1993 reforçaram a vitória do PS de 1989 (embora depois destas o PSD revalidasse os 50% dos votos da maioria absoluta que já vinham de 1987) e permitiram que António Guterres consolidasse a sua liderança no PS, antes de chegar a primeiro-Ministro; as de 1997 implicaram a demissão de Manuel Monteiro da chefia do CDS-PP e a sua substituição por Paulo Portas; as de 2001 também iam levando à saída do próprio Portas, mas a hecatombe do PS levou antes à demissão de Guterres, do Governo e do partido, e à posterior alteração da situação política; as de 2013 permitiram que António Costa recebesse o suplemento necessário para meses depois se guindar à liderança do PS, além de surpreenderem parte do país desatento com a eleição do movimento independente de Rui Moreira para a câmara do Porto; e finalmente as de 2017 implicaram a saída de cena de Pedro Passos Coelho, após sete anos à frente do PSD, quatro dos quais como Primeiro-Ministro.

Como se vê, as autárquicas têm bem mais implicações do que a mera atribuição dos destinos de uma dada autarquia: permitem estudar a situação política e não raras vezes alterá-la. E também fazem emergir figuras que depois ocupam o centro do terreno, ou servem de trampolim para cargos mais altos, como a câmara de Lisboa tão bem comprova. Os últimos 40 anos da vida política portuguesa foram bastante influenciados por estas eleições que antigamente eram realizadas sob o frio de Dezembro e agora passaram para esta calidez de princípios de Outono. Balsemão, Guterres e Passos que o digam.

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domingo, outubro 08, 2017

Ainda as autárquicas - e os maoístas que recebem dinheiro do estado?


Ainda gostava de saber como é que um partido cujo líder nunca aparece e que escreve missivas ameaçadoras a insultar os adversários e a enaltecer o terrorismo islâmico, não raras vezes sob pseudónimos ridículos, que organiza congressos clandestinos, que nunca atende a chamadas telefónicas nem a toques de campainha na sede, que chama "traidores" a todos os adversários e que, sendo contra a democracia e clamando pela "revolução operária", recebe mais de 180 mil euros anuais de subvenção do estado, participa nas autárquicas sem que ninguém lhes pergunte nada. Não haveria nenhum jornalista que perguntasse aos candidatos do MRPP o porquê de Arnaldo Matos se esconder, quais os seus propósitos para as autarquia, e já agora, o que era feito de tal subvenção que pelos vistos coincidiu com a tomada do poder do partido por dementes?

sexta-feira, outubro 06, 2017

Análise global aos resultados autárquicos


Algumas análises das autárquicas feitas pelos actores políticos pecam pela ligeireza. Não é lá muito rigoroso dizer-se que "á uma vitória dos partidos que sustentam a maioria e uma derrota para a direita" (e menos ainda a lengalenga da CDU do "reforços de posições", que finalmente tiveram de ultrapassar). A verdade é que o PS é o grande vencedor e o CDS o outro vencedor. O PSD e a CDU são os grandes derrotados e o Bloco, se ganha um lugar em Lisboa, fica a milhas de reconquistar Salvaterra e redemonstra não ser um partido com implantação municipal.

O discurso de derrota do PSD constituiu um autêntico pré-anúncio de demissão de Pedro Passos Coelho. O agora líder cessante estava há muito desgastado, o aparelho partidário e os "barões" estavam saturados e o seu prazo de validade já tinha passado. As autárquicas foram o golpe final. Se pensou que os resultados seriam menos negativos, então não lhe restaria mesmo qualquer alternativa. Não só foram péssimos como o PSD perdeu o controlo nas grandes áreas urbanas e a indefinição sobre os candidatos a Lisboa revelaram-se ainda mais desastrosas do que o inicialmente previsto. Nada se salvou. Finalmente percebeu que a saída era inevitável. Entretanto, começou a guerra da sucessão, que poderá ser curta se só Rui Rio, o único confirmado, avançar.

O PCP perdeu muito, em sítios inesperados (Almada acabou por ser a estocada final, já que a sua perda por escassos votos para Inês Medeiros só se confirmou quando a noite já ia avançada). Perdeu câmaras simbólicas, coisa que ninguém apostaria, cerca de dez, perdeu votos, percentagens, vereadores, juntas de freguesia. Desta vez não houve "discurso de consolidação" que lhes valesse. E as reacções não têm sido nada boas. Ainda por cima, quando o PS tanto evitou bicadas aos socialistas. Mesmo Assim, Jerónimo acusa o PS e o BE, ameaça não fazer qualquer acordo nas câmaras que perdeu, e não certamente por acaso já se ouvem ecos de greves anunciadas convocadas pela CGTP.

O CDS, sozinho, não teve grande votação, mas se juntar uns pontos das coligações com o PSD obtém números razoáveis. Pedia-se que Assunção Cristas tivesse mais de 10% em Lisboa e que mantivesse as cinco câmaras. Conseguiu mais e 20% na capital, o melhor de sempre deste partido (em coligação com MPT e PPM), ainda melhor que o também segundo lugar em 1976 e que permitiu a Abecassis encabeçar a AD depois vencedora, e adicionou Oliveira do Bairro à contabilidade (mantendo, como sempre, Ponte de Lima). O CDS confirma a inversão iniciada em 2013 da queda acentuada na política local que se verificava desde os anos oitenta e Cristas confirma e reforça a sua liderança e eclipsa a imagem de Paulo Portas, cortando as últimas amarras. É doravante a líder quase incontestada do partido. 

O Bloco confirma-se como pequena força autárquica: teve mais votos e mais vereadores, ganhando a aposto Ricardo Robles em Lisboa e tendo contribuído para a derrota da CDU em Almada, mas falhou a entrada na executivo no Porto e ficou a anos-luz de reconquistar a sua antiga câmara de Salvaterra de Magos. Terá de esperar por outros "desertores" de esquerda.

Os independentes deram cartas. Rui Moreira ganhou de novo e com maioria absoluta, Isaltino arrancou Oeiras ao anterior movimento que o apoiava, em Portalegre ou Estremoz mantiveram as respectivas câmaras eme locais como Águeda ou Terras de Bouro conquistaram novas. "Verdadeiros" ou gente que bateu  porta com o ex-partido e regressa para se vingar, as candidaturas independentes vieram para ficar.

E o PS? O PS ganhou. Largamente. Maior vitória de sempre numas autárquicas, maior número de câmaras, de vereadores, de deputados municipais, de juntas de freguesia, manteve concelhos como Lisboa, Sintra, Gaia, Funchal, Gondomar, Coimbra e Barcelos, reconquistou Matosinhos, Beja, e Chaves, entre outros, e alguns municípios onde nunca tinha ganho, como Almada, Mirandela, Paredes e Marco de Canaveses. Só no Minho é que as coisas correram pior, com a perda de alguns concelhos. O problema é que a vitória poderá ter sido demasiado grande e provocado feridas na Geringonça, nomeadamente no PCP, que já vocifera e prepara algumas greves via CGTP. É esperar para ver.


terça-feira, outubro 03, 2017

Tem a palavra o Rei


Na Catalunha assistimos a acontecimentos contraditórios e caóticos: o governo nacional a reagir à paulada, com cargas policiais desproporcionadas e excessivas que não auguram nada de bom; o governo regional a fazer um plebiscito violando a constituição, o estatuto autonómico e as próprias regras da assembleia regional; o dito plebiscito feito em urnas transparentes, com boletins trazidos de casa e eleitores a votar mais do que uma vez; protestos contra Piqué no treino da selecção espanhola, minando ainda mais o ambiente; e o presidente da Generalitat a anunciar uma futura "declaração unilateral de independência" quando a maioria dos eleitores recenseados nem votou (e os que votaram fizeram-no sabe-se lá em que condições), e nem sequer houve observadores internacionais, como se exige nestes casos. No fundo, mais uma vez chocaram o autoritarismo castelhano e o anarquismo catalão; noutras ocasiões em que tal aconteceu, mesmo quando conseguiram resolver o diferendo, houve sangue pelo meio.

Perante isto, e com a cegueira de parte a parte, impõe-se a intervenção do órgão mais livre e mais respeitável de Espanha: a Coroa. Felipe VI tem o dever de falar e de actuar como o obriga a Constituição. Tal como o seu Pai, que em 1981 usou as suas prerrogativas de soberano para acabar com um golpe de estado militar e consolidar a democracia.
PS: O Rei falou, enfim. Teve um discurso duro e não hesitou em acusar a Generalitat pelos acontecimentos que se têm passado. Talvez preferisse algumas palavras de conciliação, mas também tinha que marcar uma posição. Afinal de contas, é o garante da unidade da nação.

segunda-feira, outubro 02, 2017

O grande vencedor?


Ao ver as capas dos jornais, dir-se-ia que o grande vencedor destas autárquicas é Fernando Medina. Que é o PS no seu conjunto não restam quaisquer dúvidas, e só alguém muma dimensão paralela o poderá negar. Que Medina ganhou também não. Mas ser o grande destaque? Medina perdeu a maioria absoluta e 9% em relação há 4 anos, mas parece que todos se esqueceram disso (e Assunção, sem o PSD, apenas juntando o PPM ao CDS e MPT, teve quase tanto como Fernando Seara em 2013). Além do mais, teve todas as facilidades e mais algumas, entre apoios, divisão dos adversários, boas notícias para o Governo, etc. Entretanto, Rui Moreira não só voltou a ganhar como subiu até aos 44% e conquistou a maioria absoluta. Teve um caminho muito mais espinhoso, não tinha os meios nem os apoios que Medina teve, em termos de partidos apoiantes só contava com o CDS e o MPT a seu lado, e para mais, até as sondagens lhe foram adversas - as mais favoráveis ficaram aquém do resultado real. No entanto, parece que a única matéria de destaque é o seu discurso. E o PS, que teve um extraordinário resultado no Grande Porto (tirando a perda de Vila do Conde), fica arredado da governação da cidade por culpa do pecado da gula da sua direcção nacional. Ao mesmo tempo, o PSD, que até há 4 anos governou esta cidade com maioria absoluta, teve um resultado irrisório. E diga-se o que se disser das crí­ticas de Moreira, a culpa não cabe só a Álvaro Almeida, que realmente, e para o bem ou para o mal, não tem um perfil muito político. Por outro lado, os partidos mais à esquerda tiveram também fracas percentagens: a CDU por pouco ficava pela primeira vez fora do executivo. Talvez seja a altura de se ir renovando, pese o bom currículo de Ilda Figueiredo. O BE subiu um bocadinho, mas como sempre ficou fora. Pela 4ª vez, Teixeira Lopes ficou à  porta da vereação. Também aqui deviam pensar em fazer algumas mudanças, até porque dá ideia que o Bloco no Porto só tem actores ou sociólogos.

Ainda sobre as sondagens e seus erros: trabalhei muitas vezes para as sondagens do CESOP da UCP, de urna às costas ou de computador à  ilharga, por terras remotas e por subúrbios que desconhecia. Conheço os métodos rigorosos que utiliza, e por isso é que as suas previsões são as mais certeiras (foram os únicos a prever o triunfo de Moreira há 4 anos, e também os primeiros a prever a revalidação da maioria cavaquista em 1991). Desta vez, ao dar empate com o PS, falharam redondamente. Prova-se que as crí­ticas de Moreira tinham razão de ser. Espero que tenha sido um percalço sem continuidade e que voltem ao rigor e exigência que sempre tiveram.

Foto de João Pedro Pimenta.

sexta-feira, setembro 29, 2017

O fenómeno dos dinossauros municipais


Continuando com o assunto das  autárquicas do último post, há um assunto que não deixa de me espantar, sobretudo pela magnitude que atingiu para estas próximas eleições: o regresso em massa dos "dinossauros" autárquicos. Não são apenas Isaltino Morais, Narciso Miranda (que muito oportunisticamente lançou a sua candidatura em dia do Senhor de Matosinhos, alcunha pela qual era conhecido quando estava à frente da câmara), Valentim Loureiro ou Avelino Ferreira Torres: temos também os regressos de Ana Cristina Ribeiro, a única autarca do Bloco, que volta à arena em Salvaterra de Magos; ou Fernando Costa, que depois de quase 30 anos na CM das Caldas da Rainha e de ser vereador em Loures, se candidata agora a Leiria; ou mesmo o prezado Gabriel Albuquerque Costa, antigo presidente da câmara de Penalva do Castelo pelo CDS e PPM (o último autarca que este partido teve), que depois de ser candidato pelo PS, recandidata-se novamente pelo PSD/CDS.

Exemplos não faltam, de norte a sul, de antigos presidentes de câmara que regressam, quase todos
pelo município que governaram, de Montalegre a Almodôvar, passando por Pombal, Covilhã e Golegã (há excepções, como Fernando Seara, Joaquim Raposo ou o antigo autarca de Castelo de Paiva que concorre agora ao Marco), e casos até de presidentes até 2013 que defrontam os seus substitutos (o referido caso de Salvaterra de Magos, Caminha, Elvas, etc). Normalmente concorrem pelo partido a que pertenciam, mas há, claro, a questão dos independentes. São esses os casos mais bicudos: postos à margem pelo partido, concorrem por listas próprias, muitas vezes com o seu nome e com alguns fiéis seguidores que trouxeram dos seus mandatos. Usam vulgarmente expressões como "muitos cidadãos anónimos têm-me vindo prestar apoio na rua", ou "ponderei durante largos meses e decidi candidatar-me", ou ainda aludem às famosas "ondas de fundo" (muitos surfistas há entre os dinossauros autárquicos).

Mas afinal qual é a razão de regresso destes representantes do Jurássico municipal? Uma real vontade de resolver os problemas da terra? O serviço de missão ao partido? Uma séria indignação com os sucessores? Ou o vício do poder e a vaidade própria de quem se julga um quase proprietário da terra e quer continuar a ser amado/temido no seu quinhão? A avaliar por algumas declarações de representantes da espécie, que falam da gestão municipal como "uma paixão" ou "um vício", a resposta deverá estar aí mesmo. O poder inebria, vicia, por vezes corrompe. Pode ser um "afrodisíaco" mais forte que o dinheiro. E depois, muitos destes antigos autarcas já não sabem fazer muito mais coisas quando se afastam da respectiva ex-câmara, ou simplesmente, como são normalmente pessoas de acção e de execução, não têm espírito para ficar parados. Daí que a possibilidade de regresso cative muitos. Para felicidade de muitos munícipes, mas nem sempre a bem do supremo interesse da terra.

quinta-feira, setembro 28, 2017

Catarina Portas e o Livre, uma hipotética candidatura para Lisboa


A campanha das autárquicas caminha para o fim. Temo-nos debruçado sobre o que se passa em Lisboa e Porto. Observemos a capital: um sem número de candidatos, de todos os partidos e coligações possíveis, que só não ultrapassa Oeiras em número de candidaturas por aí haver três listas "independentes". Em Lisboa há várias senhoras na luta, a começar por Assunção Cristas, do CDS (mais PPM e MPT) e Teresa Leal Coelho, a escolha tardia do PSD. Há ainda a candidata do PAN e a frenética Joana Amaral Dias, que avança desta vez pelo Nós, Cidadãos, numa das escolhas mais estranhas destas autárquicas, sendo que ela provém da esquerda radical e o movimento tem a encabeçá-lo elementos ligados aos sectores monárquicos.

Mas talvez ainda houvesse espaço para mais uma candidata. Reparei que Fernando Medina, além de ser apoiado, obviamente, pelo PS e pelos movimentos de Helena Roseta e Sá Fernandes (já agora, o que será feito deles?), conta também com o apoio do Livre. Bizarro, numa câmara longe de ser transparente, mas pode ser nova tentativa do movimento de Rui Tavares de conseguir futuras alianças com o PS à esquerda, caso a "Geringonça" gripe. E talvez o Livre tivesse outras opções melhores.

Aqui há ano e tal, numa extensa entrevista ao Público, Catarina Portas criticou várias escolhas da actual CM de Lisboa. Depois de elogiar opções passadas de António Costa, considerou Fernando Medina "uma desilusão", que Lisboa estava "num momento crítico", com um decréscimo da "qualidade da vereação" e com uma "preponderância do urbanismo", cujas opções "não eram as mais inteligentes a longo prazo". E reafirmou-se tendencialmente mais de esquerda, ainda que diferente da que fora do irmão Miguel Portas.

Se o Livre estivesse para aí virado e tentasse um golpe de audácia, e caso Catarina Portas se resolvesse a experimentar a política autárquica, seria uma candidatura alternativa interessante. Ao contrário de Amaral Dias, Portas não chama freneticamente as atenções nem procura o mediatismo como um fim em si mesmo, e tem um projecto interessante e coerente baseado no artesanato e na produção portuguesa dos últimos cem anos. Sendo conhecida do grande público, e com os quiosques, A Vida Portuguesa e os recentes programas televisivos sobre marcas portuguesas tradicionais a trazerem ainda mais atenção, talvez conseguisse votos suficientes para ser eleita vereadora e ter alguma actuação na câmara de Lisboa. Nesse caso, ficaria a curiosidade de ser a terceira Portas a candidatar-se à capital, sendo que Nuno Portas chegou a ser uma forte hipótese para o PS em 1989, que, como se sabe, acabou por avançar vitoriosamente com Jorge Sampaio em coligação com o PCP. Para isso, seria preciso que ultrapassasse as suas hesitações, que como se vê pela entrevista, eram imensas. E que o Livre pelo menos tentasse, em lugar de se juntar a Medina. Eis uma boa oportunidade desperdiçada, e uma hipotética candidatura que seria mais interessante do que a maioria das que são apresentadas aos lisboetas.
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terça-feira, setembro 26, 2017

Rescaldo das eleições na "Germânia".


Nas eleições alemãs de Domingo materializaram-se nas urnas algumas tendências recentes, como a subida da AfD e o regresso dos liberais ao Bundestag, mas a CDU e o SPD desceram a níveis ainda mais baixos do que se julgava. Merckel voltou a ganhar, mas com um baixo score. Com toda a confusão eleitoral,  já se prevê uma inédita e atribulada coligação "Jamaica" entre CDU-Verdes-Liberais (do velho FdP, uma sigla que pode vir a ser muito usada nos próximos tempos em Portugal se o seu líder vier a ser ministro das finanças). Dando azo a grandes euforias no início, o efeito Schultz no SPD esvaziou-se com a passagem dos meses e revelou-se um enorme flop, acabando num resultado que seria inimaginável há algumas semanas: "apenas" o pior resultado eleitoral de sempre dos sociais democratas.

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Entretanto, a comunicação social deu grande atenção aos resultados dos radicais da AfD e aos protestos nas ruas contra estes. Eis uma das modas nos últimos tempos que me escapa: aparecerem logo uns quantos furiosos a manifestar-se contra os resultados de um partido legal com um número elevado de votos. Pergunto-me o que quererão tais manifestantes: que as eleições sejam anuladas? Que os seus potenciais eleitores sejam proibidos de votar? Nunca votaria em tal partido, mas ver malta a vir para as ruas "contra o resultados das eleições" mostra bem que os inimigos da democracia não estão num só extremo. Não tenho ideia de ouvir semelhantes protestos quando ex-elementos da STASI foram eleitos para parlamentos estaduais. Além de que, e como já vários (comentadores) políticos tão díspares como Paulo Portas e Rui Tavares disseram, é sempre melhor ver extremistas no parlamento a obedecer às regras da democracia e do primado da lei do que a tomar conta das ruas e dos humores das multidões. E ainda por cima já começaram as divisões na AfD, pelo que o sucesso pode ser efémero.

A jogada de Azeredo Lopes


Apertado entre o caso de Tancos e o ricochete que as suas desastradas declarações provocaram, fragilizando ainda mais a sua situação, José Alberto Azeredo Lopes teve agora uma intervenção discreta mas surpreendente. Depois de ter sido o porta-voz da candidatura de Rui Moreira em 2013 e seu chefe de gabinete até ir para o Governo, o Ministro da Defesa vem agora apoiar Manuel Pizarro, recandidato do PS à câmara do Porto, com a desculpa apressada de que "algo mudou". Azeredo Lopes, nitidamente pouco à vontade, ainda esteve numa acção de campanha de Pizarro, tentando passar despercebido e sem dar mais explicações.

Pode parecer estranho que um Ministro sem filiação partidária, que fazia parte do núcleo duro de Moreira, que era um dos rostos da sua campanha, e que aparentemente saiu sem zangas, venha de repente, e de forma inesperada, apoiar o candidato do PS contra o actual inquilino dos Aliados, tendo ainda por cima de ouvir o adjectivo "cata-vento" atirado por forças políticas como PSD ou Bloco. Mas há uma explicação plausível: Azeredo Lopes vê a sua posição de tal forma fragilizada que se agarra agora a uma candidatura do PS para ganhar as boas graças do partido do governo e assim conquistar algum apoio. Apoiando Pizarro, pode ser que o aparelho socialista o tente segurar por mais uns tempos. Mas é uma jogada de eficácia duvidosa, e só demonstra o quanto a sua situação é delicada. Se Azeredo não resistir no cargo a seguir às autárquicas, não voltará certamente a conquistar a confiança de Moreira, e tão cedo também não será chamado pelo PS, pelo que ficará com a sua carreira política e institucional seriamente comprometida. O mais provável é ter de regressar a reger a cadeira de Direito Internacional Público e que tão cedo não saia de lá.

sexta-feira, setembro 22, 2017

D. António Francisco dos Santos

 Como não tenho escrito muito nos últimos dias, não posso deixar assinalar, e ainda sobre o Porto, a morte inesperada e abrupta de D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto. Esteve apenas três anos e meio à frente da diocese, tempo suficiente para deixar a sua marca. Ainda me lembro da sua entronização, com o terreiro da Sé coberto de gente, com as cores de todo o tipo de ordens e confrarias, e D. António Francisco a vir às portas da catedral cumprimentar as pessoas. Entre outras medidas que implementou, há uma particularmente visível e bem vinda: a abertura do Paço Episcopal ao público. Visitá-lo será sempre gratificante e uma forma de aproveitar um legado que nos deixou. Não teremos é de novo a oportunidade de nos cruzarmos com ele nos corredores do Paço, como era usual. E assim a antiquíssima Diocese do Porto permanece em sede vacante.

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PS: entretanto outro antigo bispo relacionado com a Diocese do Porto deixou-nos. D. Manuel Martins, o primeiro bispo de Setúbal, entronizado numa altura crítica, em 1975, enfrentou grandes adversidades políticas (e não necessariamente com os comunistas) e sociais. Nunca deixou de denunciar a fome e a pobreza da sua diocese em momentos críticos, e ganhou grande notoriedade por isso. Recordo que depois da sua resignação ao cargo, já bispo emérito, serviu durante algum tempo o cargo de pároco da ilha do Corvo, segundo ele próprio, por espírito de missão mas também por grande curiosidade em conhecer aquele meio tão isolado.

quinta-feira, setembro 21, 2017

Debates no Porto


Começou a campanha para as autárquicas. Outra vez a animação de 308 concelhos e uns milhares de freguesias a votos. A guerra eleitoral, as promessas repetidas, os problemas de cada município, candidatos mais ou menos pitorescos, coligações pouco naturais e os habituais "casos de campanha". E os debates.

Não disse ainda nada sobre os debates entre os candidatos à câmara do Porto que passou na TV nas últimas semanas. Não vi o primeiro, que não contou com a presença de Rui Moreira (fica sempre a ideia de que seria bom estar presente, mas com imensos debates em pouco tempo e em vésperas do fim de semana dos aviões da Red Bull Air Race e da visita dos inspectores para a Agência Europeia do Medicamento, razões bem mais atendíveis do que o Portugal - Ilhas Faroé, a disponibilidade não era a maior), mas assisti ao segundo, no incrível cenário do salão árabe da Bolsa, e a partes do terceiro, na Alfândega.

No essencial, deu para ver que Moreira e Pizarro, tirando umas ligeiras picardias para não perder a face, quase não se hostilizaram e tentaram passar o episódio da ruptura das candidaturas de forma rápida e indolor. Os restantes adversários pouco exploraram a questão, ao contrário do Caso Selminho, em que tanto Ilda Figueiredo como João Teixeira Lopes, os regressados candidatos da CDU e o Bloco, exploraram até à exaustão. É pena, porque questões importantes da cidade ficaram por discutir, como a cultura, por exemplo (talvez porque seja uma área cuja actuação municipal nestes quatro anos não mereça reparos). Rui Moreira perdeu um pouco a tramontana, mas a verdade é que a insistência num assunto entregue à justiça (e até ver arquivado), que só terá real importância se a Assembleia Municipal do Porto alterasse o PDM na escarpa da Arrábida. Falou-se na mobilidade e no trânsito, um dos maiores problemas do Porto, com algumas propostas interessantes sobre os parquímetros, sobretudo por parte de Álvaro Almeida, e de alguma discussão sobre o traçado de futuras linhas do metro. Houve ainda algumas propostas sobre habitação e formas de evitar o Êxodo da população, turismo e pouco mais.

Não me alongarei muito sobre Rui Moreira, que como sabem apoio. Esteve entre o razoável e o bom, e se nalguns capítulos se pedia um pouco mais de calma, no geral passou o teste. Pizarro conseguiu evitar toda e qualquer agressividade, apresentou propostas e ideias, e no geral esteve bem. O problema da candidatura do PS não é o seu cabeça de lista, mas o tenebroso aparelho socialista do Porto e os que da cúpula do partido levaram ao romper do acordo com Moreira.
Álvaro Almeida mostrou que não está muito à vontade na política, mas provou não ser um mero bonzo ser bem melhor do que a patética candidatura do PSD Porto. Outro candidato que vale mais do que aquilo que o segmento do partido que o suporta.
Ilda Figueiredo pareceu-me combativa no pior sentido da palavra: inoportuna, tagarela, repetitiva - a célebre cassete do PC. Dá para ver que já teve tempos melhores.
Teixeira Lopes continua igual a si mesmo: irritante até à medula, populista quando lhe conveio. Atirou propostas que outros partidos já tinham feito, explorou o caso Selminho enquanto pôde, e disse banalidades falsas ("a câmara não teve qualquer medida para regrar o turismo", por exemplo). Espero sinceramente que tenha o mesmo resultado das anteriores tentativas: que fique à porta da câmara.
Quantos aos restantes, demasiado folclore e poucas ideias: simpatiza-se com Orlando Cruz, mas tudo espremido pouco tem a dizer. O mesmo se diga da exótica senhora do PAN e do folclórico recandidato do PTP, Costa Pereira, que não se percebe o que quer. Ah, e a candidata do PNR desfiou a cassete da extrema-direita: "primeiro os nossos", "refugiados não", etc.

As ideias estão aí, pena é que se tenha desperdiçado tanto tempo em quezílias dispensáveis. Venha a decisiva semana de campanha.

quinta-feira, setembro 14, 2017

Restrição em dia de bola? Óptimo


Até há uns anos julguei que jogos de futebol em dia de eleições fossem proibidos por norma, até perceber que era uma mera boa vontade tácita dos organismos que controlam a bola. Via jogos de futebol noutros países em dia de voto, coisa que me parecia bizarra, e tinha um certo orgulho em que isso não acontecesse em Portugal. Até há 2 anos, quando o costume de jogos e eleições não colidirem acabou. Um mau princípio.

Agora, perante igual cenário, que inclui um Sporting-Porto ao fim da tarde do dia das autárquicas, surge a notícia de que o Governo vai proibir jogos em dias de eleições com força de lei (através de DL?). Levantou-se um coro contra a "ridícula proibição" ou o "infantilismo" com que o estado trata os eleitores. Como se estivéssemos perante uma restrição ditatorial ou um ataque prepotente à vida dos cidadãos.

Talvez não tenha grande acompanhamento, mas aqui aplaudo ruidosamente esta intenção do Governo. Sim, a bola é um factor de perturbação das eleições, muito mais do que a missa, os passeios em família, o cinema, etc. Basta ver o grau e a quantidade de discussão na TV. Que acham que se discutirá mais no próximo dia 2 de Outubro? O resultado do clássico da véspera ou dos executivos eleitos? Com sorte, talvez o último tenha mais uns minutos de atenção. Sim, acho que as autárquicas (e quaisquer outras eleições gerais) têm mais importância que qualquer jogo, que é um erro ignorar a enorme abstenção e os fenómenos sociais que a possam fomentar, que os eleitores são em grande parte infantis ou indiferentes. E já agora, tantas vezes o Estado ou outros entes públicos têm ajudado o futebol que este deve no mínimo corresponder. Não se trata de proibir o futebol, apenas impedir que calhe naquele dia. Se até há dois anos nunca tinha havido jogos em dia de votação, por alguma razão seria - o que mata à partida o argumento de que "os calendários das provas nacionais e europeias são apertados". A futebolização da sociedade, que tanto mal tem feito ao próprio jogo, não pode sobrepor-se aos instrumentos democráticos. Venha de lá essa restrição; já devia existir há muito.

quinta-feira, agosto 31, 2017

Reencontro em Vilar de Mouros


Este é o momento de um reencontro. Os dois vultos em destaque no palco são Jim Reid, vocalista dos Jesus and Mary Chain (o seu irmão William está atrás, na guitarra), e Bobby Gillespie, líder dos Primal Scream. Os dois grupos são originários de Glasgow, surgiram em meados dos anos oitenta e marcaram a cena musical no fim dessa década e no início da seguinte (é sabido que os Mary Chain influenciaram os Pixies e mesmo os Nirvana). Mas antes de se virar para o microfone, Gillespie tocou bateria no grupo dos irmãos Reid. Há dias, em Vilar de Mouros, deu-se o feliz reencontro. Embora já tivesse sido anunciado, houve largos aplausos quando antigo baterista entrou em palco para dar início à emblemática Just Like Honey, do primeiro disco da banda, Psychocandy, onde ainda participou, e que teve um suplemento de popularidade quando Sophia Coppola se lembrou de a escolher para temo de fecho de Lost in Translation.

Pelo que percebi, Gillespie não saiu em conflito do seu antigo grupo, mas não voltou a colaborar, pelo menos desta forma tão exposta. Não encontrei sinais de outro concerto em que se tivessem voltado a juntar. O acaso, ou a vontade dos organizadores, permitiu que tocassem no mesmo dia e no mesmo local. E em Vilar de Mouros, os Jesus and Mary Chain voltaram à formação inicial dos anos oitenta, com emoção e nostalgia à mistura. Só mesmo num ambiente como o da aldeia minhota, no decano dos festivais portugueses, é que tal coisa poderia acontecer. E o público agradeceu.




A transferência de Neymar podia dar uma cena de um filme


O mês de Agosto e o defeso ficaram inevitavelmente marcados pela maior transferência futebolística da histórica, a monstruosa compra de Neymar pelo Paris Saint-Germain ao Barcelona, por astronómicos 220 milhões de euros, e que superou duplamente o anterior recorde - Pogba, comprado no ano passado pelo Manchester United por pouco mais de cem milhões de euros. Qual bola de neve, a transferência do craque brasileiro para Paris inflacionou o mercado e levou a outros negócios avultadíssimos, como a compra de Dembelé, um jovem de 20 anos muito tecnicista, por mais de cem milhões de euros pelo Barcelona, de forma a colmatar a saída de Neymar e mostrar alguma força, a tentativa de compra de Philippe Coutinho ao Liverpool por 150 milhões (que ao que tudo indica falhou) e outros negócios que aqui há uns anos seriam inimagináveis.

As somas do negócio, para muitos obsceno, podem fazer surgir algum sentimento de pudor, mas além da valor em si também causam admiração se pensarmos que o PSG pertence a um fundo do Qatar, gerido pela família que reina no pequeno mas riquíssimo estado árabe, que desde Junho enfrenta um bloqueio económico e diplomático dos seus vizinhos árabes, e que resolveu fazer um golpe mediático e publicitário para mostrar o seu poder económico e garantir alguma influência fora do Golfo Pérsico, agora que a Al-Jazeera também enfrenta sérias ameaças. é verdade que a política sempre utilizou o futebol como canal de propaganda e de influência, mas a este nível, tão transversal e internacional, não há grande memória.

Mas geostratégia à parte, o facto de ter sido o PSG a comprar um craque da bola por tão avultado montante trouxe-me à memória uma curiosidade, uma cena do filme franco-romeno "O Concerto", de 2009, que teve assinalável êxito de crítica e de bilheteira. A dada altura, para conseguir fundos para uma digressão a Paris, ao teatro Châtelet, os protagonistas, músicos russos retirados, convencem um oligarca melómano a financiar o projecto, ao que este acede na condição de o deixarem tocar na orquestra. Eis senão quando aparece a mãe do magnata, a invectivá-lo por por não aproveitar, já que ia para Paris, para comprar o PSG e levar para lá o Messi, porque o futebol é que estava a dar (não sei se é textual, mas é mais ou menos isto, e se não me engano haverá por lá uma qualquer comparação a Abramovich). 
Não sei se os príncipes qataris viram o filme, mas a verdade é que foram multimilionários árabes, e não russos, a comprar o clube parisiense, e acabou por ser Neymar, e não Messi, a trocar Barcelona pelo Parque dos Príncipes. A realidade acabou por ser um tudo de nada diferente, mas mais uma vez, a vida imitou a arte quase ao milímetro. 

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terça-feira, agosto 22, 2017

Uma conversa sobre Mosul em Moledo




É possível, numa noite de segunda-feira de nevoeiro, em Agosto, numa povoação balnear em que as pessoas estão sobretudo a pensar no dia seguinte de férias, nos viras que se tocam mais acima ou em conversas à volta da cerveja ou do whisky nocturno, levar um número apreciável de gente ouvir um testemunho de alguém que esteve nos locais mais deserdados deste Mundo - Afeganistão, Síria, RD Congo, Mosul? Absolutamente.

Gustavo Carona, anestesista no hospital Pedro Hispano de Matosinhos pertencente aos Médico sem Fronteiras, já com cinco missões em zonas particularmente difíceis, esteve recentemente em Mosul, na parte tomada ao Daesh, e parte em breve para a República Centro-Africana, deu o seu testemunho do que viu, do contacto que teve com populações atingidas por vários fogos e em situação crítica, e do que pensa sobre a guerra e as suas motivações, tanto de uns lados como de outros. A conferência (ou melhor, a tertúlia), teve lugar em Moledo, com a presença de Álvaro de Vasconcelos, conhecido especialista em assuntos internacionais e apresentado por João Pimenta (Pai do escritor destas linhas). E desenrolou-se uma conversa e um testemunho sem cinismos - uma das grandes fatalidades desta nossa era, em que tanta gente tem medo de expor sentimentos ou de dar "parte de fraca" - mas também sem lamechices ou sentimentalismos bacocos. Objectiva, clara, realista, e por vezes tocante. 

A conferência também serviu para (re)apresentar o livro que coordenou, 1001 Cartas para Mosul, e a sua venda reverte para os Médicos Sem Fronteiras (cuja história e missão também explicou) e para a Plataforma de Apoio aos Refugiados. O livro, como o título indica, é composto de mil e uma mensagens - que nos remetem para as Mil e Uma Noites, também com origem no que é o actual Iraque - em português, inglês e árabe, destinadas à população daquela desgraçada cidade, totalmente destruída e parcialmente liberta, já que os sunitas residentes têm sofrido abusos às mãos das milícias xiitas, eles próprios também vítimas da violência sunita.
De qualquer forma, prova-se que em férias também é possível haver conversas sérias, objectivas, anti-cinismos, e que atraem assistências numerosas (não se fiem na fotografia).

sábado, agosto 05, 2017

Época a abrir


Aí está, a nova época 2017-2018, a abrir com a supertaça. O ano futebolístico começa cedíssimo, mesmo tendo em conta que há Mundial em Junho. Antigamente a coisa só tinha início em meados do mês, e o campeonato começava por altura dos meus anos. Ainda me lembro dos anos em que ficava surpreendido com as ligas francesas, ou outras, começarem em princípios de Agosto. Mais uma moda estrangeira que chegou a Portugal.

É inútil escapar ao óbvio: com as vendas de Ederson, Lindelof e Semedo o plantel do Benfica está indiscutivelmente mais fraco. É verdade que a entrada de Seferovic e Krovinovic fortaleceram lá à frente, mas a defesa é um autêntico remendo. Bem podem dizer que "o que há basta para consumo interno, o pior é lá fora". Pois não, não basta. No ano passado o Benfica já não ganhou com grande folga, por isso não é este ano as coisas não serão melhores. A baliza está confiada a um veterano de grande qualidade mas que já demonstra o peso dos anos e que tem lesões frequentes, a outro veterano que nem se sabe se fica e uma promessa que voltou passado um ano e que precisava de mais algumas épocas de experiência. No centro da defesa temos um Luisão com 36 anos e que não é eterno, um Jardel de 31 que passou a época passada quase toda na enfermaria e um Lisandro que parece que tem desaprendido de jogar, fora duas muito jovens incógnitas. E se o lado esquerdo está assegurado, à direita temos um verdíssimo Pedro Pereira que parece acusar a responsabilidade e o bombeiro André Almeida, que pode tapar alguns fogos mas não dá para tudo. Ou seja, três posições a preencher, iso sem contar que as lesões no plantel são frequentes e Fesjsa nem sempre está bem (e Samaris ainda pode sair).

Falou-se na pré-época ruim do Benfica. Mas nem é isso que me preocupa. As pré-épocas pouco têm a ver com as temporadas propriamente ditas, e a comprovar recordemos uma goleada sobre o Real Madrid no tempo de Jesus, que depois deu em nada, os 5-1 sofridos do Arsenal (este ano foram 5-2) antes de mais um título, ou a pré-temporada desastrosa de André Villas-Boas quando tomou o comando do Porto...Tenho mesmo para mim, que o normal é serem inversamente proporcionais. O que preocupa mesmo são as contratações necessárias. Entre os nomes avançados, agradou-me o do holandês Cillesen e pouco mais (fala-se de um Douglas, vindo do Barcelona, que pela que mostrou pode ser  uma espécie de Okunowo, lembram-se?). Provavelmente o Benfica está à espera dos últimos dias do mercado, para aproveitar as oportunidades. Houve um ano em que entraram de enfiada, no fim do prazo, Jonas, Samaris e Júlio César, que asseguraram o título. Mas nem sempre as coisas correm como o previsto, e não se podem descurar as primeiras jornadas e o entrosamento necessário. Por isso, espero que as entradas não demorem assim tanto. E que venha o Penta, claro, e se for possível já a supertaça.

sexta-feira, agosto 04, 2017

Técnicas de combate ao turismo


Não aprecio lá muito ver hordas com o uniforme de turista tão evidente (calções, mochila de variado tipo, boné de pala e um mapa que não sabem ler nas mãos), ou a entrar de chanatas no Café Majestic. Mas não deixa de ser curioso que, praticamente no mesmo dia em que se lançam grandes debate sobre a "turistificação em excesso", as formas de restringir ou mesmo de combater o turismo (até de forma violenta), surja também a notícia de restaurantes que exploram os turistas mais incautos a preços abjectos. Afinal quem é que prejudica quem? Grande falta de sentido de oportunidade, no mínimo.

terça-feira, julho 25, 2017

A França depois das legislativas (e uma nota final cinéfila)


Já foram há mais de um mês, mas talvez pela segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário francês, afundaram algumas das forças políticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.

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Quanto aos outros partidos, a direita tradicional dos Republicains, depois da desilusão Fillon, aguentou-se a custo e permanece como segundo partido parlamentar. Mas a temível máquina partidária sofreu algumas pannes, e vários foram os elementos que trocaram o partido gaullista pelo de Macron, a começar pelo novo primeiro-ministro, Édouard Philippe. Terá o papel algo ingrato de  principal oposição a Macron quando há matérias em que provavelmente até estarão de acordo, e de manter o legado do  mais forte ideário político francês do último meio século.

A Frente Nacional confirmou a estagnação. Depois do terço de votos conquistado nas presidenciais,  Le Pen não está muito certa do caminho e só espera que as coisas não corram bem a Macron, numa arriscada estratégia de "quanto pior, melhor". Não pode fazer muito mais. Apesar disso sempre conquistou oito lugares no parlamento, incluindo o da própria Le Pen, o que é um progresso tendo em conta os eternos um ou dois que obtinha normalmente, tendo em conta o sistema uninominal francês.

A France Insoumisse do agora principal representante da esquerda radical, Jean Luc Mélenchon, está numa situação idêntica. Não tendo tido um resultado extraordinário, obteve dezassete lugares numa eleição em que concorreu separado dos comunistas, seus habituais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições do pós-guerra, ficou-se pelos dez deputados e por uma votação baixinha.

O maior derrotado da contenda é, como já o tinha sido nas presidenciais, e como todas as sondagens indicavam, o PSF. O partido de Mitterrand, de Delors e de Hollande passou de primeira para quinta força política, perdeu mais de 20% dos votos e mais de 280 lugares. Os seus rostos principais não conseguiram sequer ser eleitos. É uma derrota estrondosa de um partido histórico a que muitos já vaticinavam a decadência, e que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. A atestá-lo está o facto de Benoit Hamon, o candidato socialista das presidenciais de Abril último, ter anunciado a saída do partido para fundar um novo movimento. Se Manuel Valls pretendia o fim do velho PS e o surgimento de algo novo, então parece ter acertado em pleno.  

E só para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, assinale-se que nos anos oitenta o PS e o PCF, quando socialistas e comunistas se coligaram, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.

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Mas nem tudo são rosas para o novo poder executivo de Macron: logo a seguir à segunda volta das legislativas, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram exonerados por causa da velha questão de aproveitamento de dinheiros europeus para financiamentos partidários. Entre eles encontrava-se François Bayrou, ministro da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.

Uma nota curiosa: felizmente para os cinéfilos que a primeira sangria governamental se ficou por aqui e que não atingiu o ministro do ambiente, o carismático Nicolas Hulot, antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. O apelido pode parecer familiar, e não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto ao que parece distraído, que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se terá inspirado para compôr a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecível protagonista de Playtime, Mon Oncle e As Férias do sr. Hulot, interpretado pelo próprio. Assim, o governo francês conserva um traço de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.

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quarta-feira, julho 12, 2017

O partido auto-anti-comunista


A manifestação de há dias promovida pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação a favor do regime da Venezuela, constituído sobretudo por pessoas conotadas com o PCP (com Ilda Figueiredo e João Oliveira à cabeça) levou-me a pensar que o partido de Jerónimo tem uma certa vergonha do seu nome e da sua sigla, senão vejamos: só por duas vezes (nas eleições para a Constituinte e nas seguintes, em 1975 e 1976) é que o PCP se apresentou a votos com nome próprio. Seguiram-se a FEPU e a APU, com a presença servil do MDP-CDE, e quando este último ganhou algum brio e se separou, a CDU, que dura até hoje, com essa célula que nunca concorreu sozinha a umas eleições conhecida como "Os Verdes" e um resquício do MDP chamado Intervenção Democrática e que apenas é conhecida por se ter apoderado do nome da revista Seara Nova (que já nada tem a ver com a antiga).




Depois, as intervenções esporádicas deste Conselho Português para a Paz e Cooperação )CPPC), uma organização "pacifista", que chegou a ser presidida por Costa Gomes, e que curiosamente só se manifesta contra guerras e conflitos na parte a que diz respeito aos Estados Unidos, NATO e Israel. A título de exemplo, veja-se o último naco de prosa publicado, em que acusa os EUA, Israel, etc e se defende o regime de Assad e as respectivas "forças patrióticas" (onde é que já ouvimos isto?). A posição do PCP em assuntos externos, sem tirar nem pôr, e com a mesma linguagem.

E depois, claro, temos a CGTP, a poderosa e intersindical, o braço do PC nos sindicatos, que apesar de teoricamente acolher "outras tendências", a fazer lembrar os partidos políticos autorizados da RDA só para fazer número, representa a Soeiro Pereira Gomes nos sindicatos, embora haja quem garanta que é o inverso. Por alguma razão os seus coordenadores são sempre comunistas (Carvalho da Silva afastou-se entretanto do partido). A linguagem, os slogans e palavras de ordem, os símbolos, e a sua perenidade, vão todos na linha do PCP. É a maior influência do partido na sociedade portuguesa, talvez com alguma "concorrência" das numerosas autarquias que detém 



Apesar disso, o PCP só aparece com nome próprio nos congressos, num ou noutro comício e nas jornadas parlamentares. De resto, concorre sempre a eleições sob o manto da CDU, manifesta-se contra "a guerra" e as "agressões imperialistas" passando por ser o CPPC e organiza greves e "jornadas de luta" com a sigla da CGTP. Dir-se-ia, apesar de todo o passado de oposição ao Estado Novo, dos quase cem anos de existência e do prestígio que ainda mantém em certas zonas do país e sectores profissionais, que tem vergonha da sua sigla e do seu símbolo. Ainda receará a memória do 25 de Novembro e do que esteve para acontecer? Terá fundado medo que a queda do comunismo em quase todo o mundo traga repercussões graves se se apresentar com nome próprio, mesmo que ainda haja pudor em relembrar os crimes dos seus camaradas de outros países? Seja como for, tão grande e longeva camuflagem partidária é estranha. Como se apesar de gabar tanto a sua história, o PCP tivesse algum pudor inconfessável. E que pelo menos no que toca ao nome e aos símbolos, seja também um pouco auto-anti-comunista.


quinta-feira, junho 29, 2017

Ribeiro Telles e a floresta


Na sequência dos terríveis incêndios de triste memória no Pinhal Interior, e no meio de todas as críticas e recriminações, surgiram nas redes sociais uns textos a recordar as casas dos guardas florestais construídas no Estado Novo, a passar a ideia de que no Estado Novo quase não havia incêndios por causa das políticas seguidas,  e no fundo a louvar Salazar e a recriminar o regime actual.
É verdade que havia mais vigilância florestal. Mas também havia mais população no interior, que começou a abandoná-lo precisamente nas décadas do Estado Novo, levando ao abandono dos campos e de parte importante do território e à desertificação. E sobretudo iniciou-se nesse período uma política florestal que levou ao abandono de campos e de baldios (como descreve Aquilino Ribeiro no romance Quando os Lobos Uivam), à diminuição drástica da pastorícia e ao avanço de espécies arbóreas que muito contribuiriam para os futuros incêndios, em especial o pinheiro bravo e o eucalipto, por razões industriais e económicas. A herança florestal do Estado Novo acabou por ser uma bomba ao retardador.

Em boa hora a Visão recordou uma entrevista de 2003 a Gonçalo Ribeiro Telles. As respostas que dá são como sempre actualíssimas e muito à frente do tempo. Já que algumas das suas ideias foram postas em prática nas cidades, convinha que também o fizessem no campo, e em especial nas florestas.
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sexta-feira, junho 23, 2017

S. João mutilado


Alguém se lembra de algum acidente provocado por balões de S. João? É que não tenho ideia de alguma vezter tido conhecimento de algum. Não será a tal lei aprovada recentemente algo restritiva demais? É que não sendo uma medida temporária, o que aqui temos é a morte dos balões.
Mesmo nas alturas em que não pude ir ao S. João estando no Porto (porque tinha exames, por exemplo), havia uma coisa que não faltava e que estava lá sempre: os pontinhos iluminados no céu, lançados de todos os pontos da cidade. Sempre gostei imenso de os ver, e avistar o primeiro dava-me logo entusiasmo para a noite (quando podia ir, claro).

Este ano, o S. João vai estar mutilado. Se alguém olhar para os céus, e a não ser que haja infractores, vai parecer-lhe outra noite qualquer.


quarta-feira, junho 21, 2017

Helmut Kohl


A tragédia que varreu o interior centro do país acabou por fazer esquecer o desaparecimento de um dos maiores estadistas alemães e europeus dos últimos cem anos, Helmut Kohl. O antigo chanceler esteve 16 à frente dos destinos da RFA (e 8 de toda a Alemanha unificada), substituindo Helmut Schmidt e pondo cobro a mais de uma década de governos do SPD, com apoio dos liberais do FDP, que passaram a apoiar a sua CDU. Numa década em que coincidiram nos respectivos cargos Reagan, Gorbachov, João Paulo II e Mitterand, constituiu com este último a continuidade do eixo Paris-Bona na liderança da CEE, que permitiu a adesão a países como Portugal e Espanha. Permitiu a entrada de mísseis em território alemão, mas estendeu a mão a Gorbachov, que retirou as tropas soviéticas dos países do Pacto de Varsóvia, e com isto assistiu à queda do Muro de Berlim, e contra todas as crenças e boa parte das opiniões, conseguiu juntar as duas Alemanhas. A reunificação teria um custo social e económico elevado, mas acabou com uma cicatriz profunda e com uma divisão meramente ideológica. Para além do seu papel nos assuntos europeus, no fim da Guerra Fria e na criação da moeda única, o grande legado de Kohl é de facto a reunificação da Alemanha, o que lhe deu um estatuto semelhante ao de Bismarck. O fim do seu mandato de 16 anos acabou manchado pelas acusações de desvios de dinheiro para fins partidários, mas é uma mácula que não o impedirá de ficar na História como um enorme estadista (literalmente, e o seu tamanho gargantuesco de gros gourmand será outra das coisas por que será recordado), um pacificador e indubitavelmente um vencedor.

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segunda-feira, junho 19, 2017

Os culpados e as razões


Eu sei que a tragédia que tem arrasado o Pinhal Interior gera revolta e vontade de culpar algo ou alguém. Mas nada justifica os milhares de moralistas de ocasião que aproveitam a oportunidade para vir com as teorias da conspiração, a sabedoria saloia, apontando os dedos aos "culpados" e aos "perito que nunca fazem nada" - embora me pareça que os peritos são os que mais fazem, ou seja, estudam as situações, divulgam os seus relatórios e esperam que quem de direito actue devidamente.

Mais do que apontar o dedo para toda a parte, cumpre antes de mais actuar no presente e pensar no futuro, que no caso dos incêndios é já amanhã. Diz-se sempre que "isto só muda quando houver uma tragédia". Pois já está a haver uma, ainda pior e mais mortífera do que a que vimos há menos de um ano. Não há mais margem para adiamentos. Os diagnósticos estão feitos, cumpre agir. E todo este pesadelo leva-nos a dois assuntos muito discutidos ultimamente: a prevenção e combate aos incêndios, pois claro, mas também o ordenamento do território. Sim, a coesão territorial não é só levar organismos de Lisboa para o Porto, como muitos julgam. Há que prestar atenção a territórios como Pedrógão Grande, Vimioso, Figueira  de Castelo Rodrigo, Pampilhosa da Serra, Monforte ou Alcoutim, que perderam população, recursos e capacidade de se renovar ao longo das últimas décadas. Que me lembre, já não ouvia notícias da região do Pinhal Interior desde que fizeram a praia artificial de Castanheira de Pêra. Não são só os eucaliptos e o pinheiro bravo os responsáveis por este inferno. A falta de população, que abandonou estas terras em direcção às capitais de distrito e aos subúrbios do litoral, é dos casos mais graves do nosso país nas últimas décadas. Retiram-se das aldeias, dos lugares e dos campos e deixam-nos ao abandono, sob a anarquia do mato e de espécies arbóreas que crescem mais rapidamente. Perdem-se os corta-fogos e os vigilantes da terra. Qualquer relação entre isto e o aumento proporcional dos fogos ao longo dos anos não é mera coincidência.

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sábado, junho 17, 2017

Seis Dias que abalaram o Médio Oriente

 
Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, que arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscada, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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 A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.

A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel conseguia o velho sonho de se apoderar de toda a Jerusalém, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

segunda-feira, junho 12, 2017

Desconclusões das eleições no Reino Unido


Incrível como no espaço de um ano os líderes conservadores ingleses (e primeiros-ministros no cargo) conseguem convocar actos eleitorais quem à partida fortaleceriam a sua posição e saem deles muito mais fracos. O caso de David Cameron é evidentemente muito mais grave, porque para consolidar a sua posição face aos contestatários internos e marginalizar o UKIP abriu caminho ao terramoto do Brexit, que pela primeira vez retirou à União Europeia um dos seus membros e isolou um Reino Unido já sem império. Depois da sua retirada, e da rocambolesca sucessão de candidatos à liderança do partido e do governo, acabou por sobrar Theresa May, então ministra da administração interna, e até ali favorável à permanência na União europeia.
 
May fartou-se de meter os pés  pelas mãos e de dar uma série de tiros nos primeiros, desde prometer uma "saída dura" (ela que até fora semi-europeísta) até jurar que não convocaria eleições antecipadas, passando pelos seus cortes nos efectivos policiais numa altura em que o país é fustigado pelo terrorismo. Semanas depois, anunciava mesmo eleições gerais, para aproveitar o momento, em que as sondagens davam uma maioria ainda mais forte aos tories e previam uma derrota bisonha ao Labour de Jeremy Corbyn, comparando o momento do partido ao do tempo de Michael Foot, o mais esquerdista líder de que havia memória. Pensou, tal como Cameron, que se legitimaria através de eleições e ganharia assim força para prosseguir com o Brexit. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Perdeu incrivelmente a maioria absoluta e viu os trabalhistas registarem um grande avanço, coisa impensável semanas antes. E ainda os liberais-democratas a recusarem-se a fazer parte do governo, ao contrário do que sucederam em 2010. Não lhe restou alternativa senão ir a Belfast procurar o apoio dos unionistas norte-irlandeses da DUP para conseguir um frágil governo.
 
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Não há conclusões claras a tirar deste processos. A principal será a de que os políticos britânicos demasiado calculistas e gananciosos acabam por ser castigados nas urnas. Os trabalhistas sobem, os conservadores e os independentistas escoceses descem, os liberais-democratas registam um ligeiro avanço e o UKIP é arrasado, o que não espanta depois da lamentável luta - em sentido literal - pela liderança do partido e o descrédito do bufão Nigel Farage. Mas não se confirma o tal arrependimento dos eleitores em relação ao Brexit, já que os trabalhistas tinham tido uma atitude dúbia e os maiores defensores do Remain tinham sido os lib-dem e os escoceses. e já agora, com o desaire destes últimos, a possibilidade de novo referendo à indpendência da Escócia deve ficar por ora afastada.
 
Theresa May perdeu quase toda a credibilidade que lhe restava, formará um governo frágil que poderá não durar muito tempo, e a possibilidade de Jeremy Corbyn, o velho esquerdista que propõe nacionalizações, chegar ao governo, é bem real. E o processo do Brexit prossegue. Tal como a confusão no momento político.

terça-feira, junho 06, 2017

O estado da situação no Porto, um mês depois do cisma Moreira-PS

 
Já se passou mais de um mês desde que Rui Moreira declinou o apoio do PS à sua candidatura. A minha percepção da coisa não mudou muito desde então, mas preferi esperar que o pó dos acontecimentos políticos assentasse. E não faltaram outra novidades autárquicas, até o regresso de Valentim Loureiro às batalhas eleitorais. Ou do caso Selminho, que voltou como arremesso de lama eleitoral e que promete continuar a dar que falar.
 
Como alguns leitores se lembrarão, votei em Rui Moreira em 2013 e tenciono voltar a fazê-lo. Aliás, andei a fazer campanha nas ruas, por vezes sob a intempérie, onde a alguns dias da eleição já se notava uma notória tendência de voto no candidato que venceu (não há como a campanha porta a porta para se perceber isso, mais do que os comícios que hoje em dia são sobretudo encontros gastronómicos com presença maciça de militantes arregimentados). Pese a parcialidade, tudo isto resulta do que observei nestes 4 anos e no que retiro do momento político actual.
 
O rompimento entre o movimento de Rui Moreira e o PS deu-se após alguns sinais de nervosismo por parte do primeiro, com a discussão de lugares e depois de Ana Catarina Mendes considerar que a eventual vitória de Moreira seria contabilizada como sendo do PS. Pelo meio, já tinha havido o desacordo de inúmeros elementos do PS, do Porto e não só (Francisco Assis, por exemplo), a contestação à liderança distrital de Manuel Pizarro e as acusações sibilinas de Manuel dos Santos, lá da sua prateleira dourada no Parlamento Europeu, para além de algumas divergências de Manuel Correia Fernandes, que detinha o importante pelouro do urbanismo. Mas o acordo firmado em 2013 corria bem, e Pizarro tinha a confiança de Moreira. Não era por ele que as coisas dariam para o torto. Como muitas vezes acontece, os movimentos subterrâneos e as intrigas partidárias acabaram por resultar, com a preciosa ajuda da cúpula política. Não sei se era intencional, mas a verdade é que Ana Catarina Mendes conseguiu implodir o acordo e deixou Pizarro numa situação complicadíssima. Alguns socialistas agradeceram. Outros sentiram-se traídos.
 
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Quem ganhou e quem perdeu? À primeira vista, Moreira ficou sem algumas cruzes no boletim e a quase certeza da maioria absoluta. Mas provavelmente ganhou mais do que perdeu. Ficará com menos votos do que os que teria se o PS o apoiasse, mas conseguiu manter a independência formal do seu movimento e afastar a ideia do "domínio da câmara" por parte do PS (cujos vereadores, de resto, renunciaram aos respectivos pelouros). Mantém o apoio do CDS, que conseguiu sempre manter-se no grupo vencedor de forma sabiamente discreta, e agora do MPT e do Nós, Cidadãos, além do grupo que já o apoiava e que tem várias origens políticas. O grande problema, que afectou o executivo nestes quatro anos, é que o núcleo duro se enfraqueceu com os desaparecimentos de Paulo Cunha e Silva e Manuel Sampaio Pimentel (e outros, infelizmente), ou a partida de Azeredo Lopes. Será esse o principal desafio de Moreira, que até agora só prometeu conservar o pelouro da cultura nas suas mãos. De resto, o plano para a cidade tem-se cumprido, com ênfase nos pilares a que deu maior importância (a cultura, na economia e a coesão social), e a saúde financeira não se afasta muito do rigor dos tempos de Rui Rio. E nalguns casos, como a resolução do problema da Feira do Livro, provou-se que pode haver apostas públicas na cultura sem necessidade de enormes gastos. Mas há mais problemas a resolver, como o do trânsito.
 
Quanto ao PS, fica numa situação muito complicada: não pode criticar o executivo de que fazia parte, não pode apresentar um programa demasiado parecido com o da lista de Moreira, com o risco de se secundarizar, nem afastar-se totalmente, sob pena de ser acusado de oportunismo. Pizarro e os seus camaradas têm aqui um quebra-cabeças difícil de resolver. Até porque se Moreira voltar a ganhar sem maioria, poderá muito bem voltar a precisar da confiança do cabeça de lista do PS (não necessariamente dos outros).
 
O PSD perde também o argumento de que a câmara era "controlada pelo PS (ou, numa deriva incompreensível, pela "extrema-esquerda")". Tem como candidato alguém que parece ser a antítese de Luís Filipe Menezes: o independente, discreto e pouco conhecido Álvaro de Almeida. Mas talvez por falta de experiência e de tacto político, ou por total ausência de ideias, Almeida tem levado a cabo uma campanha absurda, em que acusa Moreira de "não ter cumprido nenhuma promessa" (lembrou-se provavelmente das escadas rolantes para o Palácio de Cristal) e de ser um "traidor", "déspota", "populista", etc. Só falta mesmo chamar-lhe terrorista ou jiadista, mas já não deve faltar muito.
 
À esquerda, o regresso do PS a uma candidatura própria pode ser impeditivo de uma maior capitalização de votos nesse espectro. Nesse sentido, a aposta em nomes conhecidos pode não ser a melhor jogada. A CDU volta a lançar Ilda Figueiredo como candidata à câmara, vinte anos depois da sua última candidatura, e para a assembleia municipal o seu sucessor na vereação, Rui Sá, gabado pelo seu trabalho enquanto vereador com pelouro no primeiro mandato de Rui Rio, numa daquelas improváveis coligações "vodca-laranja". O Bloco de Esquerda jogava forte, com a candidatura de João Semedo, ex-"coordenador" do movimento, com larga experiência política e há muito a viver na cidade (e um dos raros bloquistas do Porto que não é nem actor nem sociólogo). Mas hoje mesmo, por razões de saúde, Semedo desistiu da candidatura à câmara e trocou de lugar com João Teixeira Lopes, passando assim a candidato a deputado municipal. A infeliz circunstância pode diminuir as hipóteses do Bloco conseguir pela primeira vez um lugar na vereação do município, até porque Teixeira Lopes por mais do que uma vez experimentou a mesma candidatura e teve sempre resultados bisonhos.
 
As eleições para a câmara do Porto prometiam ser uma maçadoria, mas afinal aqueceram com estes pequenos terramotos políticos. Será mais uma querela autárquica a seguir, a merecer atenção em algumas matérias importantes para a cidade, embora preveja que a ordem dos resultados vá ser a mesma de 2013. Aliás, não faltam motivos de entretenimento no distrito do Porto: temos os regressos de Valentim Loureiro, de Narciso Miranda (que anuncia a candidatura, mesmo a calhar, no dia do Senhor de Matosinhos), de Avelino Ferreira Torres, e até o filho de Vieira de Carvalho está concorre à Maia. Vá lá que Fátima Felgueiras e Luís Filipe Menezes resistiram à tentação de ver as suas fotos novamente nos cartazes.