sábado, dezembro 31, 2016

A praga das virtudes privadas


Entre o Natal (que espero que tenha sido bom para todos os leitores) e o Ano Novo, os "acontecimentos do ano" substituem as notícias. são um autêntico maná para muita comunicação social, porque permite algum descanso: não é preciso estar-se atento a todas as notícias e manchetes, basta ir-se fazendo uma síntese do ano que acaba nas suas várias dimensões. Se o trabalho de casa for feito ao longo dos meses, nem será um período muito trabalhoso.

Mas a verdade é que o país abranda mas não para. E assim temos também os habituais faits-divers da terra. Esta semana, tivemos as frases de Augusto Santos Silva numa confraternização do PS, comentando com Vieira da Silva, em tom jocoso, que o acordo de concertação social para o aumento do salário mínimo "parecia uma feira de gado". Bastou um jornalista mais manhoso (e ainda por cima o inefável Moura-Pinto) e um microfone suficientemente perto para a notícia ecoar e estalar a "polémica", onde não faltou até quem pedisse a demissão do ministro. Que não teve lugar, claro, mas qua ainda assim não escapou a um pedido de desculpas. E para efeitos de comparação, a situação é bem diferente da de João Soares, que proferiu as suas ameaças para todos os que o pudessem ler.

Uma das praga dos nossos dias é esta constante intromissão no que as pessoas dizem ou deixam de dizer ou de pensar fora do âmbito dos seus cargos públicos. Com a tecnologia e as redes sociais, ninguém está a salvo. E temos uma opinião pública muito pouco esclarecida, que cada vez mais confunde o público com o privado. A influência desta lamentável confusão é, muito provavelmente, fruto da cultura protestante anglo-saxónica (e não só: não é por acaso que os programas como o Big Brother nasceram na Holanda), e do seu puritanismo avassalador, procurando sempre os pecadilhos da vida privada. Vê-se no Reino Unido, com a imprensa tabloide e as revistas de mexericos, mas sobretudo nos Estados Unidos e a devassa total com laivos de moralismo exacerbado (quem não se lembra da perseguição enxovalhante a Bill Clinton em finais dos anos noventa?). Uma coisa que até há pouco tempo não tínhamos por cá. Mas com o telelixo, as redes sociais mais as suas frases "indignadas" e mal escritas de gente que acredita mais em sites manhosos de teorias da conspiração e uma espécie de moralismo para quem é indiferente o aborto mas que fica em brasa com piadas entre amigos, ninguém mais está seguro. O cúmulo aconteceu há pouco tempo, quando um qualquer grupo LGBT espanhol quis uma investigação para saber se um jogador do Atlético de Madrid tinha chamado "maricas" a Cristiano Ronaldo num habitual bate-boca a maio do jogo.
 
Bom seria que a próxima vítima apanhada numa fala mais politicamente incorrecta num momento privado e que seja apanhado por um qualquer microfone indiscreto admitisse não só o que disse, mas o reafirmasse a se recusasse a pedir desculpas. Só assim se pode travar esta mania sufocante, sinistra, da confusão entre vida privada e pública. Que em 2017 haja muitas reacções assim.

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