domingo, fevereiro 24, 2008

Enfim os No Smoking Orchestra ao vivo


Outro que certamente não apreciou a secessão do Kosovo e o seu reconhecimento pelo bloco ocidental é Emir Kusturica. Há umas semanas tive oportunidade de o ver ao vivo, no meio dos seus No Smoking Orchestra, depois de algumas tentativas falhadas em que não vieram ao Porto. Quando se decidiram a vir às duas principais cidades, eu estava por Lisboa nesse fim de semana e comprei bilhete para o Coliseu dos Recreios.
Quem conhece a obra cinematográfica do realizador sérvio mas não conhece a banda (que já tem uns largos anos de carreira) poderá saber sempre ao que vai se se lembrar das bandas sonoras de Underground, Gato Preto, Gato Branco e A Vida é um Milagre. Ou ainda do mais antigo Tempo dos Ciganos, que nunca vi e sobre o qual assentava esta tournée. O estilo é o popular "gipsie punk", e tem alguns seguidores, como os ainda mais frenéticos Gogol Bordello, cujo líder, Eugene Hutz, poderá ser visto em breve protagonizando a primeira incursão de Madonna na realização. Os elementos da banda são inúmeros e tocam tanto guitarra, baixo e bateria como violino, harmónica e saxofone. Uma salada balcânica simultaneamente ruidosa e melodiosa.
Os No Smoking Orchestra faziam parte da lista de grupos musicais que queria realmente ver in loco. Além dos filmes, o meu conhecimento da sua obra vinha de um disco ao vivo (há também o DVD) de um concerto que deram há uns anos em Buenos Aires. O que vi não andou nada longe do que já suspeitava.

Cheguei ao Coliseu com receio de que o concerto estivesse no início, mas ainda demorou uns minutos; já sabia que o Benfica estava a ganhar em Guimarães (um jogo decisivo), e queria tirar a limpo se todos os espectáculos da banda começavam da mesma forma. Pude confirmá-lo ao ouvir os acordes do hino russo, com o qual os artistas entraram em cena.
É certo que Kusturika, com a sua guitarra, é o principal chamariz, mas a verdade é que meio espectáculo fica por conta do incansável vocalista Nele Karajlić, que se exibiu com um fato e uma camisola desportiva por baixo (do Partizan?) e que não parou de chamar pelo público, de se passear entre o palco e a plateia ou de pôr todo o recinto com gritos de apoio ao Partizan, e creio que ao Kosovo sérvio também.
O carrossel balcânico rolou com profissionalismo e alegria, embora me pareça que tivesse faltado uma pitada a mais para ser um concerto memorável. Senti que carecia daquele espírito anárquico que se encontra na obra de Kusturica. Afinal, era o tour de Tempo dos Ciganos. Uns actos de loucura, mais do público que dos músicos, eram bem vindos. Só que os peninsulares presentes (fora alguns germânicos) eram ibéricos, não da montanhosa região a sul dos Habsburgos.
Mas nem por isso o concerto desmereceu grandes elogios. Houve alguns episódios memoráveis, como certos gritos de incitamento do vocalista imitados pelos ouvientes, a apresentação individual dos músicos (chamou-se de tudo ao realizador sérvio, de Von Karajan a David Bowie), e dois músicos tocando violino pegando cada um na vara com a boca, com as cordas por cima - Kusturica conseguiu o mesmo com a sua guitarra eléctrica. Não faltaram as míticas Bubamara, Unza Unza Time, Pitbull Terrier e Wanted Man, embora tenha sentido a ausência da frenética Vasja

O que eu não sabia é que o concerto acabava com o mesmo hino russo, depois da saída dos músicos. Houve até um grupinho que acompanhou a majestosa sinfonia de punho no ar e pose inspirada, não sei se por brincadeira ou convicção. Mas mesmo sem a anarquia do concerto de Buenos Aires, não dei por perdido o tempo e pude riscar mais um dos "concertos-que-tenho-de ver-até ao-fim-da-vida" da lista (além de que o Benfica ganhou à mesma hora por3-1). E até quem sabe, voltar a avistá-los num qualquer regresso, ou noutra ocasião em que se proporcione nova espiadela aos No Smoking Orchestra, que, está visto, dão-se bem em terreno de palco ou a coberto das imagens dos filmes do seu guitarrista. Pena mesmo é que tenham perdido o Kosovo. Que tal um novo tour para colher apoios para a causa?

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