sexta-feira, setembro 22, 2017

D. António Francisco dos Santos

 Como não tenho escrito muito nos últimos dias, não posso deixar assinalar, e ainda sobre o Porto, a morte inesperada e abrupta de D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto. Esteve apenas três anos e meio à frente da diocese, tempo suficiente para deixar a sua marca. Ainda me lembro da sua entronização, com o terreiro da Sé coberto de gente, com as cores de todo o tipo de ordens e confrarias, e D. António Francisco a vir às portas da catedral cumprimentar as pessoas. Entre outras medidas que implementou, há uma particularmente visível e bem vinda: a abertura do Paço Episcopal ao público. Visitá-lo será sempre gratificante e uma forma de aproveitar um legado que nos deixou. Não teremos é de novo a oportunidade de nos cruzarmos com ele nos corredores do Paço, como era usual. E assim a antiquíssima Diocese do Porto permanece em sede vacante.

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quinta-feira, setembro 21, 2017

Debates no Porto


Começou a campanha para as autárquicas. Outra vez a animação de 308 concelhos e uns milhares de freguesias a votos. A guerra eleitoral, as promessas repetidas, os problemas de cada município, candidatos mais ou menos pitorescos, coligações pouco naturais e os habituais "casos de campanha". E os debates.

Não disse ainda nada sobre os debates entre os candidatos à câmara do Porto que passou na TV nas últimas semanas. Não vi o primeiro, que não contou com a presença de Rui Moreira (fica sempre a ideia de que seria bom estar presente, mas com imensos debates em pouco tempo e em vésperas do fim de semana dos aviões da Red Bull Air Race e da visita dos inspectores para a Agência Europeia do Medicamento, razões bem mais atendíveis do que o Portugal - Ilhas Faroé, a disponibilidade não era a maior), mas assisti ao segundo, no incrível cenário do salão árabe da Bolsa, e a partes do terceiro, na Alfândega.

No essencial, deu para ver que Moreira e Pizarro, tirando umas ligeiras picardias para não perder a face, quase não se hostilizaram e tentaram passar o episódio da ruptura das candidaturas de forma rápida e indolor. Os restantes adversários pouco exploraram a questão, ao contrário do Caso Selminho, em que tanto Ilda Figueiredo como João Teixeira Lopes, os regressados candidatos da CDU e o Bloco, exploraram até à exaustão. É pena, porque questões importantes da cidade ficaram por discutir, como a cultura, por exemplo (talvez porque seja uma área cuja actuação municipal nestes quatro anos não mereça reparos). Rui Moreira perdeu um pouco a tramontana, mas a verdade é que a insistência num assunto entregue à justiça (e até ver arquivado), que só terá real importância se a Assembleia Municipal do Porto alterasse o PDM na escarpa da Arrábida. Falou-se na mobilidade e no trânsito, um dos maiores problemas do Porto, com algumas propostas interessantes sobre os parquímetros, sobretudo por parte de Álvaro Almeida, e de alguma discussão sobre o traçado de futuras linhas do metro. Houve ainda algumas propostas sobre habitação e formas de evitar o Êxodo da população, turismo e pouco mais.

Não me alongarei muito sobre Rui Moreira, que como sabem apoio. Esteve entre o razoável e o bom, e se nalguns capítulos se pedia um pouco mais de calma, no geral passou o teste. Pizarro conseguiu evitar toda e qualquer agressividade, apresentou propostas e ideias, e no geral esteve bem. O problema da candidatura do PS não é o seu cabeça de lista, mas o tenebroso aparelho socialista do Porto e os que da cúpula do partido levaram ao romper do acordo com Moreira.
Álvaro Almeida mostrou que não está muito à vontade na política, mas provou não ser um mero bonzo ser bem melhor do que a patética candidatura do PSD Porto. Outro candidato que vale mais do que aquilo que o segmento do partido que o suporta.
Ilda Figueiredo pareceu-me combativa no pior sentido da palavra: inoportuna, tagarela, repetitiva - a célebre cassete do PC. Dá para ver que já teve tempos melhores.
Teixeira Lopes continua igual a si mesmo: irritante até à medula, populista quando lhe conveio. Atirou propostas que outros partidos já tinham feito, explorou o caso Selminho enquanto pôde, e disse banalidades falsas ("a câmara não teve qualquer medida para regrar o turismo", por exemplo). Espero sinceramente que tenha o mesmo resultado das anteriores tentativas: que fique à porta da câmara.
Quantos aos restantes, demasiado folclore e poucas ideias: simpatiza-se com Orlando Cruz, mas tudo espremido pouco tem a dizer. O mesmo se diga da exótica senhora do PAN e do folclórico recandidato do PTP, Costa Pereira, que não se percebe o que quer. Ah, e a candidata do PNR desfiou a cassete da extrema-direita: "primeiro os nossos", "refugiados não", etc.

As ideias estão aí, pena é que se tenha desperdiçado tanto tempo em quezílias dispensáveis. Venha a decisiva semana de campanha.

quinta-feira, setembro 14, 2017

Restrição em dia de bola? Óptimo


Até há uns anos julguei que jogos de futebol em dia de eleições fossem proibidos por norma, até perceber que era uma mera boa vontade tácita dos organismos que controlam a bola. Via jogos de futebol noutros países em dia de voto, coisa que me parecia bizarra, e tinha um certo orgulho em que isso não acontecesse em Portugal. Até há 2 anos, quando o costume de jogos e eleições não colidirem acabou. Um mau princípio.

Agora, perante igual cenário, que inclui um Sporting-Porto ao fim da tarde do dia das autárquicas, surge a notícia de que o Governo vai proibir jogos em dias de eleições com força de lei (através de DL?). Levantou-se um coro contra a "ridícula proibição" ou o "infantilismo" com que o estado trata os eleitores. Como se estivéssemos perante uma restrição ditatorial ou um ataque prepotente à vida dos cidadãos.

Talvez não tenha grande acompanhamento, mas aqui aplaudo ruidosamente esta intenção do Governo. Sim, a bola é um factor de perturbação das eleições, muito mais do que a missa, os passeios em família, o cinema, etc. Basta ver o grau e a quantidade de discussão na TV. Que acham que se discutirá mais no próximo dia 2 de Outubro? O resultado do clássico da véspera ou dos executivos eleitos? Com sorte, talvez o último tenha mais uns minutos de atenção. Sim, acho que as autárquicas (e quaisquer outras eleições gerais) têm mais importância que qualquer jogo, que é um erro ignorar a enorme abstenção e os fenómenos sociais que a possam fomentar, que os eleitores são em grande parte infantis ou indiferentes. E já agora, tantas vezes o Estado ou outros entes públicos têm ajudado o futebol que este deve no mínimo corresponder. Não se trata de proibir o futebol, apenas impedir que calhe naquele dia. Se até há dois anos nunca tinha havido jogos em dia de votação, por alguma razão seria - o que mata à partida o argumento de que "os calendários das provas nacionais e europeias são apertados". A futebolização da sociedade, que tanto mal tem feito ao próprio jogo, não pode sobrepor-se aos instrumentos democráticos. Venha de lá essa restrição; já devia existir há muito.

quinta-feira, agosto 31, 2017

Reencontro em Vilar de Mouros


Este é o momento de um reencontro. Os dois vultos em destaque no palco são Jim Reid, vocalista dos Jesus and Mary Chain (o seu irmão William está atrás, na guitarra), e Bobby Gillespie, líder dos Primal Scream. Os dois grupos são originários de Glasgow, surgiram em meados dos anos oitenta e marcaram a cena musical no fim dessa década e no início da seguinte (é sabido que os Mary Chain influenciaram os Pixies e mesmo os Nirvana). Mas antes de se virar para o microfone, Gillespie tocou bateria no grupo dos irmãos Reid. Há dias, em Vilar de Mouros, deu-se o feliz reencontro. Embora já tivesse sido anunciado, houve largos aplausos quando antigo baterista entrou em palco para dar início à emblemática Just Like Honey, do primeiro disco da banda, Psychocandy, onde ainda participou, e que teve um suplemento de popularidade quando Sophia Coppola se lembrou de a escolher para temo de fecho de Lost in Translation.

Pelo que percebi, Gillespie não saiu em conflito do seu antigo grupo, mas não voltou a colaborar, pelo menos desta forma tão exposta. Não encontrei sinais de outro concerto em que se tivessem voltado a juntar. O acaso, ou a vontade dos organizadores, permitiu que tocassem no mesmo dia e no mesmo local. E em Vilar de Mouros, os Jesus and Mary Chain voltaram à formação inicial dos anos oitenta, com emoção e nostalgia à mistura. Só mesmo num ambiente como o da aldeia minhota, no decano dos festivais portugueses, é que tal coisa poderia acontecer. E o público agradeceu.




A transferência de Neymar podia dar uma cena de um filme


O mês de Agosto e o defeso ficaram inevitavelmente marcados pela maior transferência futebolística da histórica, a monstruosa compra de Neymar pelo Paris Saint-Germain ao Barcelona, por astronómicos 220 milhões de euros, e que superou duplamente o anterior recorde - Pogba, comprado no ano passado pelo Manchester United por pouco mais de cem milhões de euros. Qual bola de neve, a transferência do craque brasileiro para Paris inflacionou o mercado e levou a outros negócios avultadíssimos, como a compra de Dembelé, um jovem de 20 anos muito tecnicista, por mais de cem milhões de euros pelo Barcelona, de forma a colmatar a saída de Neymar e mostrar alguma força, a tentativa de compra de Philippe Coutinho ao Liverpool por 150 milhões (que ao que tudo indica falhou) e outros negócios que aqui há uns anos seriam inimagináveis.

As somas do negócio, para muitos obsceno, podem fazer surgir algum sentimento de pudor, mas além da valor em si também causam admiração se pensarmos que o PSG pertence a um fundo do Qatar, gerido pela família que reina no pequeno mas riquíssimo estado árabe, que desde Junho enfrenta um bloqueio económico e diplomático dos seus vizinhos árabes, e que resolveu fazer um golpe mediático e publicitário para mostrar o seu poder económico e garantir alguma influência fora do Golfo Pérsico, agora que a Al-Jazeera também enfrenta sérias ameaças. é verdade que a política sempre utilizou o futebol como canal de propaganda e de influência, mas a este nível, tão transversal e internacional, não há grande memória.

Mas geostratégia à parte, o facto de ter sido o PSG a comprar um craque da bola por tão avultado montante trouxe-me à memória uma curiosidade, uma cena do filme franco-romeno "O Concerto", de 2009, que teve assinalável êxito de crítica e de bilheteira. A dada altura, para conseguir fundos para uma digressão a Paris, ao teatro Châtelet, os protagonistas, músicos russos retirados, convencem um oligarca melómano a financiar o projecto, ao que este acede na condição de o deixarem tocar na orquestra. Eis senão quando aparece a mãe do magnata, a invectivá-lo por por não aproveitar, já que ia para Paris, para comprar o PSG e levar para lá o Messi, porque o futebol é que estava a dar (não sei se é textual, mas é mais ou menos isto, e se não me engano haverá por lá uma qualquer comparação a Abramovich). 
Não sei se os príncipes qataris viram o filme, mas a verdade é que foram multimilionários árabes, e não russos, a comprar o clube parisiense, e acabou por ser Neymar, e não Messi, a trocar Barcelona pelo Parque dos Príncipes. A realidade acabou por ser um tudo de nada diferente, mas mais uma vez, a vida imitou a arte quase ao milímetro. 

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terça-feira, agosto 22, 2017

Uma conversa sobre Mosul em Moledo




É possível, numa noite de segunda-feira de nevoeiro, em Agosto, numa povoação balnear em que as pessoas estão sobretudo a pensar no dia seguinte de férias, nos viras que se tocam mais acima ou em conversas à volta da cerveja ou do whisky nocturno, levar um número apreciável de gente ouvir um testemunho de alguém que esteve nos locais mais deserdados deste Mundo - Afeganistão, Síria, RD Congo, Mosul? Absolutamente.

Gustavo Carona, anestesista no hospital Pedro Hispano de Matosinhos pertencente aos Médico sem Fronteiras, já com cinco missões em zonas particularmente difíceis, esteve recentemente em Mosul, na parte tomada ao Daesh, e parte em breve para a República Centro-Africana, deu o seu testemunho do que viu, do contacto que teve com populações atingidas por vários fogos e em situação crítica, e do que pensa sobre a guerra e as suas motivações, tanto de uns lados como de outros. A conferência (ou melhor, a tertúlia), teve lugar em Moledo, com a presença de Álvaro de Vasconcelos, conhecido especialista em assuntos internacionais e apresentado por João Pimenta (Pai do escritor destas linhas). E desenrolou-se uma conversa e um testemunho sem cinismos - uma das grandes fatalidades desta nossa era, em que tanta gente tem medo de expor sentimentos ou de dar "parte de fraca" - mas também sem lamechices ou sentimentalismos bacocos. Objectiva, clara, realista, e por vezes tocante. 

A conferência também serviu para (re)apresentar o livro que coordenou, 1001 Cartas para Mosul, e a sua venda reverte para os Médicos Sem Fronteiras (cuja história e missão também explicou) e para a Plataforma de Apoio aos Refugiados. O livro, como o título indica, é composto de mil e uma mensagens - que nos remetem para as Mil e Uma Noites, também com origem no que é o actual Iraque - em português, inglês e árabe, destinadas à população daquela desgraçada cidade, totalmente destruída e parcialmente liberta, já que os sunitas residentes têm sofrido abusos às mãos das milícias xiitas, eles próprios também vítimas da violência sunita.
De qualquer forma, prova-se que em férias também é possível haver conversas sérias, objectivas, anti-cinismos, e que atraem assistências numerosas (não se fiem na fotografia).

sábado, agosto 05, 2017

Época a abrir


Aí está, a nova época 2017-2018, a abrir com a supertaça. O ano futebolístico começa cedíssimo, mesmo tendo em conta que há Mundial em Junho. Antigamente a coisa só tinha início em meados do mês, e o campeonato começava por altura dos meus anos. Ainda me lembro dos anos em que ficava surpreendido com as ligas francesas, ou outras, começarem em princípios de Agosto. Mais uma moda estrangeira que chegou a Portugal.

É inútil escapar ao óbvio: com as vendas de Ederson, Lindelof e Semedo o plantel do Benfica está indiscutivelmente mais fraco. É verdade que a entrada de Seferovic e Krovinovic fortaleceram lá à frente, mas a defesa é um autêntico remendo. Bem podem dizer que "o que há basta para consumo interno, o pior é lá fora". Pois não, não basta. No ano passado o Benfica já não ganhou com grande folga, por isso não é este ano as coisas não serão melhores. A baliza está confiada a um veterano de grande qualidade mas que já demonstra o peso dos anos e que tem lesões frequentes, a outro veterano que nem se sabe se fica e uma promessa que voltou passado um ano e que precisava de mais algumas épocas de experiência. No centro da defesa temos um Luisão com 36 anos e que não é eterno, um Jardel de 31 que passou a época passada quase toda na enfermaria e um Lisandro que parece que tem desaprendido de jogar, fora duas muito jovens incógnitas. E se o lado esquerdo está assegurado, à direita temos um verdíssimo Pedro Pereira que parece acusar a responsabilidade e o bombeiro André Almeida, que pode tapar alguns fogos mas não dá para tudo. Ou seja, três posições a preencher, iso sem contar que as lesões no plantel são frequentes e Fesjsa nem sempre está bem (e Samaris ainda pode sair).

Falou-se na pré-época ruim do Benfica. Mas nem é isso que me preocupa. As pré-épocas pouco têm a ver com as temporadas propriamente ditas, e a comprovar recordemos uma goleada sobre o Real Madrid no tempo de Jesus, que depois deu em nada, os 5-1 sofridos do Arsenal (este ano foram 5-2) antes de mais um título, ou a pré-temporada desastrosa de André Villas-Boas quando tomou o comando do Porto...Tenho mesmo para mim, que o normal é serem inversamente proporcionais. O que preocupa mesmo são as contratações necessárias. Entre os nomes avançados, agradou-me o do holandês Cillesen e pouco mais (fala-se de um Douglas, vindo do Barcelona, que pela que mostrou pode ser  uma espécie de Okunowo, lembram-se?). Provavelmente o Benfica está à espera dos últimos dias do mercado, para aproveitar as oportunidades. Houve um ano em que entraram de enfiada, no fim do prazo, Jonas, Samaris e Júlio César, que asseguraram o título. Mas nem sempre as coisas correm como o previsto, e não se podem descurar as primeiras jornadas e o entrosamento necessário. Por isso, espero que as entradas não demorem assim tanto. E que venha o Penta, claro, e se for possível já a supertaça.

sexta-feira, agosto 04, 2017

Técnicas de combate ao turismo


Não aprecio lá muito ver hordas com o uniforme de turista tão evidente (calções, mochila de variado tipo, boné de pala e um mapa que não sabem ler nas mãos), ou a entrar de chanatas no Café Majestic. Mas não deixa de ser curioso que, praticamente no mesmo dia em que se lançam grandes debate sobre a "turistificação em excesso", as formas de restringir ou mesmo de combater o turismo (até de forma violenta), surja também a notícia de restaurantes que exploram os turistas mais incautos a preços abjectos. Afinal quem é que prejudica quem? Grande falta de sentido de oportunidade, no mínimo.

terça-feira, julho 25, 2017

A França depois das legislativas (e uma nota final cinéfila)


Já foram há mais de um mês, mas talvez pela segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário francês, afundaram algumas das forças políticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.

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Quanto aos outros partidos, a direita tradicional dos Republicains, depois da desilusão Fillon, aguentou-se a custo e permanece como segundo partido parlamentar. Mas a temível máquina partidária sofreu algumas pannes, e vários foram os elementos que trocaram o partido gaullista pelo de Macron, a começar pelo novo primeiro-ministro, Édouard Philippe. Terá o papel algo ingrato de  principal oposição a Macron quando há matérias em que provavelmente até estarão de acordo, e de manter o legado do  mais forte ideário político francês do último meio século.

A Frente Nacional confirmou a estagnação. Depois do terço de votos conquistado nas presidenciais,  Le Pen não está muito certa do caminho e só espera que as coisas não corram bem a Macron, numa arriscada estratégia de "quanto pior, melhor". Não pode fazer muito mais. Apesar disso sempre conquistou oito lugares no parlamento, incluindo o da própria Le Pen, o que é um progresso tendo em conta os eternos um ou dois que obtinha normalmente, tendo em conta o sistema uninominal francês.

A France Insoumisse do agora principal representante da esquerda radical, Jean Luc Mélenchon, está numa situação idêntica. Não tendo tido um resultado extraordinário, obteve dezassete lugares numa eleição em que concorreu separado dos comunistas, seus habituais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições do pós-guerra, ficou-se pelos dez deputados e por uma votação baixinha.

O maior derrotado da contenda é, como já o tinha sido nas presidenciais, e como todas as sondagens indicavam, o PSF. O partido de Mitterrand, de Delors e de Hollande passou de primeira para quinta força política, perdeu mais de 20% dos votos e mais de 280 lugares. Os seus rostos principais não conseguiram sequer ser eleitos. É uma derrota estrondosa de um partido histórico a que muitos já vaticinavam a decadência, e que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. A atestá-lo está o facto de Benoit Hamon, o candidato socialista das presidenciais de Abril último, ter anunciado a saída do partido para fundar um novo movimento. Se Manuel Valls pretendia o fim do velho PS e o surgimento de algo novo, então parece ter acertado em pleno.  

E só para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, assinale-se que nos anos oitenta o PS e o PCF, quando socialistas e comunistas se coligaram, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.

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Mas nem tudo são rosas para o novo poder executivo de Macron: logo a seguir à segunda volta das legislativas, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram exonerados por causa da velha questão de aproveitamento de dinheiros europeus para financiamentos partidários. Entre eles encontrava-se François Bayrou, ministro da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.

Uma nota curiosa: felizmente para os cinéfilos que a primeira sangria governamental se ficou por aqui e que não atingiu o ministro do ambiente, o carismático Nicolas Hulot, antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. O apelido pode parecer familiar, e não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto ao que parece distraído, que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se terá inspirado para compôr a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecível protagonista de Playtime, Mon Oncle e As Férias do sr. Hulot, interpretado pelo próprio. Assim, o governo francês conserva um traço de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.

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quarta-feira, julho 12, 2017

O partido auto-anti-comunista


A manifestação de há dias promovida pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação a favor do regime da Venezuela, constituído sobretudo por pessoas conotadas com o PCP (com Ilda Figueiredo e João Oliveira à cabeça) levou-me a pensar que o partido de Jerónimo tem uma certa vergonha do seu nome e da sua sigla, senão vejamos: só por duas vezes (nas eleições para a Constituinte e nas seguintes, em 1975 e 1976) é que o PCP se apresentou a votos com nome próprio. Seguiram-se a FEPU e a APU, com a presença servil do MDP-CDE, e quando este último ganhou algum brio e se separou, a CDU, que dura até hoje, com essa célula que nunca concorreu sozinha a umas eleições conhecida como "Os Verdes" e um resquício do MDP chamado Intervenção Democrática e que apenas é conhecida por se ter apoderado do nome da revista Seara Nova (que já nada tem a ver com a antiga).




Depois, as intervenções esporádicas deste Conselho Português para a Paz e Cooperação )CPPC), uma organização "pacifista", que chegou a ser presidida por Costa Gomes, e que curiosamente só se manifesta contra guerras e conflitos na parte a que diz respeito aos Estados Unidos, NATO e Israel. A título de exemplo, veja-se o último naco de prosa publicado, em que acusa os EUA, Israel, etc e se defende o regime de Assad e as respectivas "forças patrióticas" (onde é que já ouvimos isto?). A posição do PCP em assuntos externos, sem tirar nem pôr, e com a mesma linguagem.

E depois, claro, temos a CGTP, a poderosa e intersindical, o braço do PC nos sindicatos, que apesar de teoricamente acolher "outras tendências", a fazer lembrar os partidos políticos autorizados da RDA só para fazer número, representa a Soeiro Pereira Gomes nos sindicatos, embora haja quem garanta que é o inverso. Por alguma razão os seus coordenadores são sempre comunistas (Carvalho da Silva afastou-se entretanto do partido). A linguagem, os slogans e palavras de ordem, os símbolos, e a sua perenidade, vão todos na linha do PCP. É a maior influência do partido na sociedade portuguesa, talvez com alguma "concorrência" das numerosas autarquias que detém 



Apesar disso, o PCP só aparece com nome próprio nos congressos, num ou noutro comício e nas jornadas parlamentares. De resto, concorre sempre a eleições sob o manto da CDU, manifesta-se contra "a guerra" e as "agressões imperialistas" passando por ser o CPPC e organiza greves e "jornadas de luta" com a sigla da CGTP. Dir-se-ia, apesar de todo o passado de oposição ao Estado Novo, dos quase cem anos de existência e do prestígio que ainda mantém em certas zonas do país e sectores profissionais, que tem vergonha da sua sigla e do seu símbolo. Ainda receará a memória do 25 de Novembro e do que esteve para acontecer? Terá fundado medo que a queda do comunismo em quase todo o mundo traga repercussões graves se se apresentar com nome próprio, mesmo que ainda haja pudor em relembrar os crimes dos seus camaradas de outros países? Seja como for, tão grande e longeva camuflagem partidária é estranha. Como se apesar de gabar tanto a sua história, o PCP tivesse algum pudor inconfessável. E que pelo menos no que toca ao nome e aos símbolos, seja também um pouco auto-anti-comunista.


quinta-feira, junho 29, 2017

Ribeiro Telles e a floresta


Na sequência dos terríveis incêndios de triste memória no Pinhal Interior, e no meio de todas as críticas e recriminações, surgiram nas redes sociais uns textos a recordar as casas dos guardas florestais construídas no Estado Novo, a passar a ideia de que no Estado Novo quase não havia incêndios por causa das políticas seguidas,  e no fundo a louvar Salazar e a recriminar o regime actual.
É verdade que havia mais vigilância florestal. Mas também havia mais população no interior, que começou a abandoná-lo precisamente nas décadas do Estado Novo, levando ao abandono dos campos e de parte importante do território e à desertificação. E sobretudo iniciou-se nesse período uma política florestal que levou ao abandono de campos e de baldios (como descreve Aquilino Ribeiro no romance Quando os Lobos Uivam), à diminuição drástica da pastorícia e ao avanço de espécies arbóreas que muito contribuiriam para os futuros incêndios, em especial o pinheiro bravo e o eucalipto, por razões industriais e económicas. A herança florestal do Estado Novo acabou por ser uma bomba ao retardador.

Em boa hora a Visão recordou uma entrevista de 2003 a Gonçalo Ribeiro Telles. As respostas que dá são como sempre actualíssimas e muito à frente do tempo. Já que algumas das suas ideias foram postas em prática nas cidades, convinha que também o fizessem no campo, e em especial nas florestas.
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